
O distanciamento com que um adulto lê as obras de John Green é confortável e terapêutico: a adolescência é um período muito conturbado e certos acontecimentos dramáticos (uma doença, uma separação, uma ausência) têm proporções épicas e desencadeiam uma série de sentimentos e sensações com as quais estes jovens adultos não conseguem lidar, porque não têm as ferramentas ou a experiência de vida adequadas.
Cada vez que leio um livro de John Green dou por mim a viajar no tempo e a analisar determinadas situações do meu passado que consigo compreender e aceitar muito melhor agora, e este é um exercício muito reconfortante e construtivo, que talvez não ocorresse tão conscientemente se não fosse despoletado pela leitura. Assim, nem que seja por uma horas, cada história permite-nos voltar a uma época em que sentíamos tudo com muito mais intensidade e em que todas as possibilidades se abriam à nossa frente sem o peso do futuro que nos aguardava.
"Quando a Neve Cai" encaixa-se nesta descrição, embora não seja da exclusiva autoria de John Green. Juntaram-se-lhe Maureen Johnson e Lauren Myracle, cujas obras anteriormente publicadas também se destinam ao público mais jovem. Estes três autores escrevem três contos distintos, que podem e devem ser lidos por toda a gente, de todas idades. Só há uma recomendação: façam-no em época de Natal, de preferência aconchegados numa manta, em frente de uma lareira ou num sítio quente.
Do facto de serem três autores a escrever três histórias diferentes que se entrecruzam, no tempo e no espaço, podia resultar uma obra desconexa e atabalhoada. Mas na realidade o que resultou foi um livro que nos aquece o coração, que nos emociona e nos relembra do que está na base do espírito natalício: os laços de amor, amizade e lealdades que nos deviam unir durante o ano inteiro.

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