terça-feira, 28 de outubro de 2014

"Crónica de Paixões e Caprichos", de Julia Quinn

O título "Crónica de Paixões e Caprichos" é totalmente desadequado a este primeiro volume da série Bridgertons (o nome da família em torno da qual se desenvolve o enredo). Teria sido preferível a editora optar por uma tradução mais literal do título em inglês - "O Duque e Eu". E este é o único defeito que consigo encontrar. Tudo o resto - a história, a recriação da época e as personagens - é delicioso.

O livro lê-se num instante, com uma facilidade que pode ser confundida com falta de profundidade ou conteúdo, mas que na realidade decorre da capacidade da autora (e, neste caso, da tradutora) em criar um enredo simples, cativante, mas repleto de pormenores e de referências que nos transportam instantaneamente para a alta sociedade londrina do século XIX.

Começamos a ler e de repente já não estamos em 2014, mas sim num salão de baile, em busca do par perfeito, de ouvido apurado para ouvir o último mexerico da temporada ou simplesmente encostada a um canto a observar o desfilar de belas jovens solteiras a cobiçar discretamente os atraentes (e solteiros) pretendentes que por lá fazem as suas aparições, em busca da esposa perfeita.

No início do livro somos apresentados ao pequeno Simon, herdeiro do ducado de Hastings, cuja personalidade ficou marcada por uma infância complicada e tortuosa. Para fugir de todo este legado familiar, um Simon já adulto parte à descoberta do mundo, fazendo inúmeras viagens pela Europa e pelo Hemisfério Sul, só retornando a Inglaterra quando recebe a notícia da morte do pai.
Este regresso não passa despercebido e, embora tenha jurado nunca se casar, Simon rapidamente se transforma no solteiro mais cobiçado da temporada - é um jovem duque muito atraente, rico e instruído, pelo que era inevitável que todas as mães casamenteiras da alta sociedade o quisessem como marido das suas filhas.

Num dos famosos bailes que caracterizavam a sociedade londrina do século XIX, Simon conhece
Daphne Bridgerton, que se sente esmagada pela pressão exercida pela matriarca da família (Violet), que não descansará enquanto não casar a sua filha mais velha. Daphne deseja ardentemente encontrar o homem dos seus sonhos, casar e ter filhos, mas não a qualquer custo. 
Rapidamente, os dois jovens apercebem-se de que a simulação de um noivado entre os dois é a solução para os seus "problemas". Só não contavam apaixonar-se um pelo outro.

É a partir deste ponto que a história ganha densidade e a mestria da autora está na sua capacidade de dosear o mistério, o romance, o humor e a crítica social de forma a que o leitor sente que a única alternativa que tem é ler compulsivamente até que não restem mais páginas para virar.
A boa notícia é que existem mais sete volumes, cinco dos quais já traduzidos para português, e ainda bem, porque quando terminamos a leitura desta "Crónica de Paixões e Caprichos" sentimos que já fazemos parte da família Bridgerton, e provocar este tipo de sensações num leitor não está ao alcance de todos os autores.

Julia Quinn, que já foi considerada a Jane Austen do século XXI, é uma grande contadora de histórias, que sabe precisamente como funciona o coração de uma mulher, atingindo em cheio os nossos pontos fracos, pelo que é praticamente impossível que uma alma romântica fique indiferente a este livro e que não se derreta, mesmo que secretamente, com a história de amor entre Simon e Daphne. 

✰✰✰✰ (4 em 5)