segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Union Atlantic", de Adam Haslett

Escrito nas vésperas da grande crise financeira do subprime, dos créditos de risco e da bolha especulativa e imobiliária, Union Atlantic é um livro sobre a economia mundial, mas também sobre pessoas, sobre os medos e as ambições que inexoravelmente vão regendo as vidas de cada um.

Iniciei a leitura deste livro com receio de não ter conhecimentos suficientes para compreender alguns termos técnicos que se adivinhavam: swaps, subprime, créditos de risco, etc. No entanto, o autor só recorre a uma linguagem mais técnicas quando é estritamente necessário e quando quer conferir autenticidade às suas descrições ou aos diálogos entre as personagens que estão diretamente ligadas ao mundo da banca e da alta finança.

A crítica aplaudiu a obra de Haslett precisamente pela contemporaneidade do tema escolhido: a crise económica que assentou na concessão de empréstimos de alto risco; a forma como a falta de regulação dos mercados (especialmente do Norte-Americano) levou à insolvência de várias instituições bancárias (que também estendiam a sua ação ao ramo dos seguros e da imobiliária); e a quebra de confiança geral no sistema financeiro após a crescente perceção de que a falta de liquidez no sistema não era uma possibilidade, mas sim uma realidade.

No meio deste furacão financeiro, entrecruzam-se as personagens de Union Atlantic: Doug Fanning, um jovem e ambicioso banqueiro, que fez fortuna a dirigir as operações financeiras de alto risco no "pequeno" império que é a instituição que dá nome ao livro; e Charlotte Graves, uma professora de História compulsivamente reformada, cujos esforços para recuperar a herança de família a colocam em confronto direto com Doug, numa cruzada jurídica com reviravoltas muito significativas.
Ainda assim, o antagonismo entre Doug e Charlotte é mitigado pelo que há de comum entre estas personagens que estão inexoravelmente unidas pelo caos em que se encontram as suas vidas despedaçadas, e a própria espiral de descontrolo que os envolve acaba por ter paralelo no próprio desgoverno em que se encontra o sistema financeiro.

O conflito entre Doug Fanning e Charlotte Graves é, na realidade, uma parábola, que ilustra a forma como a intromissão generalizada do dinheiro, do desperdício e da ostentação (como é referido pelo próprio autor) colidem inevitavelmente com os valores da justiça, da lealdade e da transparência.

O autor não optou por um fim moralista ou redentor. Acaba por não ser feita justiça no sentido literal do termo, pois não há condenações efetivas para os que perpetraram os crimes em causa, e o sistema mantém-se inalterado - aqui e ali somos alertados para as complexas relações que se forjam entre o sistema político e financeiro dos EUA, sendo evidente que o Capitólio e Wall Street funcionam em estreita cooperação.
Ainda assim, o desfecho é circular e o leitor fica com a sensação de que não ficam pontas soltas por atar: Doug pacifica-se com o passado e Charlotte acaba por conseguir exorcizar todos os seus demónios, mesmo que o seu destino acabe por ser o mais trágico de todos.

✰✰✰✰ (4 em 5)