segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"O Comboio dos Órfãos", de Christina Baker Kline

A história é extraordinária e foi só através da leitura deste livro que soube da existência de um comboio que andou pelo interior da América, no final dos anos 20, a distribuir crianças órfãs por quem delas precisasse ou que delas quisesse tomar conta. 
Baseado em factos verídicos, o que mais impressiona neste livro é o modo como a autora consegue captar o medo e o sentimento de abandono que dominava aquelas crianças. Além disso, a maior parte destas crianças era adotada por famílias do interior dos estados norte-americanos, que precisavam de mão-de-obra gratuita (as meninas costuravam ou faziam a lida doméstica, enquanto os rapazes eram recrutados para trabalhar nas quintas, na agricultura ou na criação de animais). Assim, nem sempre a paragem do comboio numa estação significava um futuro melhor para uma daquelas crianças.

A ação desenrola-se em duas épocas distintas, dividindo-se entre a atualidade, protagonizada por Molly, uma adolescente com um passado traumático, também ele uma órfã, e o passado distante, onde predominam as memórias de Vivian, uma das órfãs do comboio.  
É no contacto entre estas duas personagens que se vai desenrolando a história de Vivian, nascida Niahm numa Irlanda empobrecida e faminta. A ida de Niahm e da sua família para Nova Iorque tem um desfecho trágico e a menina vê-se sozinha, entregue aos procedimentos de uma instituição de acolhimento de órfãos, cujo procedimento é distribui-los por várias terras do interior do país durante uma angustiante e viagem de comboio. 

Niahm/Dorothy/Vivian (é muito interessante o relato de como esta criança vai crescendo e adotando novos nomes consoante as circunstâncias em que se vê envolvida) vence todas as contrariedades e é já com 90 anos que relata a sua história a Molly, uma adolescente problemática, mas sensível, cuja revolta se deve mais ao facto de ter passado por demasiados lares de acolhimento e de não ter tido a oportunidade de crescer numa família estável e que a acarinhasse. A empatia que se cria logo desde início dá lugar a uma improvável amizade, que acaba por ser redentora e determinante para ambas.

Este é um livro muito interessante porque nos por em contacto com uma realidade desconhecida. Ainda que as personagens sejam cativantes, senti algumas dificuldades em me afeiçoar a Vivian ou Molly. Há alguma falta de profundidade na história e o leitor fica com a sensação de que alguns dos episódios do passado poderiam ter sido explorados com mais detalhe de modo a conferir maior densidade à narrativa. O final é muito emotivo, mas abrupto, acontecendo tudo com muita rapidez e pouca contextualização. Ainda assim, é uma leitura que não desaponta.

✰✰✰ (3 em 5)